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terça-feira, 10 de março de 2009

CONTO 2


CHEIRO DO PASSADO
Marco Tassinari

Há sete horas o trem percorre as montanhas, atravessa minas de carvão e parreirais carregados. A mulher, aquecida pela estufa, veste uma camisola vermelha e espia o frio amanhecer da serra gaúcha, enquanto fuma. O filho dorme encolhido ao seu lado. Quando o sono veio, apagou o cigarro, puxou o cobertor e deitou, permitindo ao sono invadir seu corpo.
O serviço de som informa a chegada em Alegrete e a baldeação para Uruguaiana. A mulher troca de roupa e acorda o menino que se espreguiça alongando os braços.
A velocidade da locomotiva diminui guinchando até parar. Uma fumaça negra se espalha pela estação. O pai do garoto espera em pé. A mulher se espanta com a aparência jovem do homem, após dez anos sem vê-lo. Ela se aproxima do degrau e ele estende a mão para ajuda-la com um sorriso maroto. O mesmo do conquistador que a acompanhava na adolescência ao cinema, fazendo-a tremer quando a mão tocava de leve em suas pernas ao oferecer balas.
Continuava com a moto e as mesmas roupas de couro. O olhar desviou-se pela abertura do casaco preto e identificou a águia tatuada no peito esquerdo. A tatuagem que ela prometera remover com beijos molhados no escuro quarto do motel Aurora. O Cris ficará comigo. No fim de semana o levo para Uruguaiana, disse o pai com voz firme. Ela balançou afirmativamente a cabeça, sem responder.
O menino beijou a mãe em agradecimento pela permissão do passeio de moto e pulou na garupa. A mulher comentou sobre a alergia a cânfora do menino. Você ainda a usa para as dores de cabeça? Perguntou. Claro, respondeu o homem, é a única coisa capaz de aliviar minha enxaqueca!
O motoqueiro ligou o motor e uma nuvem de poeira subiu da terra batida. Afastou-se mas desenhou um grande círculo com a moto voltando para perto dela. Estou disposto a levar você para Uruguaiana. Quer? Ela desviou o olhar para o menino que esperava atentamente a resposta da mãe e aquiesceu.
O homem tornou a descer da moto e preparou o bagageiro para receber a mochila. Pegou o menino por baixo dos braços, alojou-o mais atrás do banco do carona e fez sinal para a mulher subir. Devido à alergia do filho, pegou os conteúdos do saco de supermercado que levava na garupa. A maconha colocou no bolso do casaco, e escondeu o punhado de cânfora no tanque de sua Harley.
A moto ganha velocidade na estrada deserta. Ela, por segurança, passa os braços na cintura do motoqueiro e sente um leve tremor quando a mão escorregou por debaixo da jaqueta. O calor das costas do homem espantava o vento da manhã gelada. Ainda gosto de você. Sussurrou perto do ouvido. O motor e o vento interferem na comunicação dos dois. O que? Intima o homem.
Acorda com uma batida insistente na porta do compartimento onde dormia. Senhora, o trem voltará para Porto Alegre, disse o encarregado do serviço de bordo. A senhora deve descer ou seguirá junto. Ela despertara com a ilusão de que não fosse apenas um sonho e surpreende-se ao constatar o sexo úmido.



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